Ontem foi realizada a sessão solene de colação de grau das turmas de Engenharia Elétrica, Mecatrônica, de Redes de Comunicação, Mecânica e de Computação da UnB. Tive a honra de ter sido escolhido paraninfo da turma da Elétrica, algo que me deixou imensamente alegre.

Reproduzo abaixo o discurso que não pude proferir em virtude de um sorteio realizado para escolher os oradores da mesa. São algumas poucas palavras que eu gostaria de ter ouvido quando me formei.

Discurso de Colação da turma de Engenharia Elétrica do 1º semestre de 2016 a ser proferido em 19 de Agosto de 2016.

Magnífico Reitor,
caros colegas membros da mesa,
senhores pais, familiares e amigos,
meus queridos alunos e agora colegas engenheiros.

Ao receber o convite de vocês para ser o paraninfo da turma, minha primeira reação, confesso, foi de descrença. Imediatamente respondi ao email da Lorena com as seguintes palavras:

“É sério isso?”

Ao confirmar que não se tratava de simples brincadeira, respondi, curto e grosso como costumo fazer nos eventuais emails que respondo:

“Tu quer me fazer chorar?”

Todo esse drama pois considero uma grande honra para um professor ser convidado paraninfo, o padrinho da turma. Me sinto sinceramente lisonjeado com essa condição.

Aproveitando o breve tempo deste discurso e a condição especial que vocês escolheram para mim, aproveito para proferir uma última lição para vocês, que será muito útil para o resto de suas vidas. Serei bastante breve, ao contrário das duas horas e um pouco mais que alguns de vocês precisaram aguentar duas vezes por semana comigo.

Resumo essa lição na seguinte afirmativa:

Os reais problemas humanos são muito mais complexos do que a capacidade de uma pessoa sozinha em resolvê-lo. Acreditem no poder da divisão do trabalho e sempre duvidem da sua própria capacidade de resolver qualquer problema.

Parece estranho, em um discurso de formatura em que as palavras de ordem costumam ser exatamente o contrário destas, falar isto, por isso explico com um simples exemplo e uma outra afirmativa muito forte: ninguém neste planeta sabe, sozinho, fazer um simples pão.

“Professor, pra fazer pão basta juntar farinha, sal, água e fermento; sovar; esperar fermentar e então assar. Qualquer um faz um pão.”

Qualquer um faz um pão, Professor…
Qualquer um faz um pão, Professor…
Pense melhor, meu caro aluno. Comecemos pelo mais singelo e simples ingrediente, a água. Ela estava em um rio em algum lugar e precisou que uma pessoa a retirasse de lá. Ela foi tratada para retirar impurezas e precisou que alguém desenvolvesse todo um sistema de filtros e um processo que hoje é extremamente complexo. Foi preciso que alguém construísse uma instalação para armazenar e realizar essas operações. Depois, foi preciso que alguém levasse essa água até a sua casa, sendo utilizadas máquinas das mais diversas para cavar buracos, construir os tubos utilizados, construir bombas em alguns lugares para vencer a força da gravidade, e toda uma miríade de outras operações que são alheias ao cozinheiro que faz um simples pão.

Somente para ter água, o cozinheiro precisou contar com o trabalho de milhares de pessoas, cada uma com um conhecimento diferente: pedreiros, encanadores, mineiros, metalúrgicos, químicos, engenheiros de processo, e muitos outros. Cada um fez somente aquilo que melhor poderia, dentro da sua área de especialidade. Estenda esse raciocínio e vislumbre a quantidade de trabalho e conhecimento que foi utilizada para fazer um simples pão, conhecimento que o padeiro não detém e trabalho que ele não poderia ter realizado. Exclua um elo dessa cadeia e veja tudo desmoronar.

Nunca se esqueçam, vocês não sabem tudo e nunca poderão saber, por mais brilhantes que sejam e por mais tempo que dediquem aos estudos. Por esse motivo, duvide sim da sua capacidade de resolver os problemas da humanidade sozinhos, vocês não poderão fazê-lo. Vou além, desconfiem sempre de quem acredita que pode fazê-lo. Pessoas assim causaram grande mal ao longo da história.

Essa posição realista, talvez pessimista, mas certamente conservadora não deve ser entendida, por sua vez, como um freio ao trabalho de vocês. Assim como o padeiro se preocupou em fazer seu pão confiando que todos os outros profissionais que ele nunca conheceu fariam o seu trabalho com dedicação e probidade, esta deve ser a postura de vocês.

Sem demonstração, afirmo que quando as pessoas se desligam desse norte, os problemas crescem exponencialmente. É isso que talvez estejamos vivendo.

Façam o seu pão, o melhor pão que vocês puderem, com dedicação e probidade, confiando que todas as outras pessoas que vocês nunca conhecerão, mas dependem delas, farão o mesmo. Somente assim vocês poderão tornar este um lugar melhor e não se tornarem seres infelizes por algo que não é culpa de vocês.

Bem vindos ao mundo real, ele é bem mais duro que o mundo da escola, mas delicioso de ser vivido.

Um forte abraço.

Edil.

Boa sorte, caros formandos.
Boa sorte, caros formandos.

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