O pessoal do Distrito Liberal me pediu para preparar uma palestra contando a minha saga para me tornar um liberal. Confesso que me é um tanto estranho escrever algo auto-biográfico. Este post é um resumo do que devo falar quando for marcado o evento presencial.

Minha mãe é servidora de carreira do IBAMA e trabalhou na gestão Fernando Henrique. Em 2003 foi trabalhar como assessora na Câmara dos Deputados. Por esse motivo, sempre tive em casa um pouco do gosto do que é lidar com políticos. Meu pai é servidor de carreira do CNPq, trabalhou em cargos técnicos nos mais diversos órgãos e Ministérios da Administração Federal. Por esse motivo, sempre tive em casa um pouco do gosto do que é lidar com a burocracia.

A saber, eu era meio social-democrata na adolescência, muito em parte por causa desse ambiente familiar. Entendia que, com a quantidade de riqueza que conseguimos construir ao longo do tempo, seria razoável fazer existir uma rede de proteção social que garantisse o básico para as pessoas: saúde, educação, algum transporte, alguma moradia, segurança. Eu acreditava que o problema do Brasil era um problema de gestão, “coloque pessoas competentes nos cargos e resolveremos nossos problemas”, “deveríamos administrar os órgãos públicos como empresas”, eram coisas que eu dizia eu com alguma frequência.

Eu sempre fui um sujeito meio nerd, estudei engenharia e engenheiros tem uma tendência muito grande a serem indivíduos que acreditam que qualquer problema pode ser solucionado a partir de um bom projeto, com bom acompanhamento e metas bem definidas.

O meu primeiro mal-estar com minhas ideias aconteceu em Abril de 2011 quando ingressei na carreira do magistério superior para ser professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Brasília, ali encontrei um ambiente extremamente estranho para mim. Por um lado, pessoas extremamente capacitadas e motivadas atuando tanto na área-fim quanto na área-meio, cuidando da administração da instituição. Por outro, uma tremenda bagunça em que é impossível saber como os processos funcionam ou quais são os fundamentos legais que regem as nossas ações ali. Realizar uma compra de material para uso em disciplinas, mesmo tendo o recurso no orçamento da unidade é um verdadeiro inferno de Dante. Como um lugar com pessoas boas e qualificadas pode ser tão desorganizado? A minha tese de que faltavam boas pessoas simplesmente ruiu e eu tive que ir atrás de outra explicação, claramente alguma coisa estava faltando na minha explicação.

O meu ponto de virada aconteceu em 2013 quando participei da primeira reunião do que viria a ser chamado Grupo de Estudos Lobos da Capital, a convite do amigo Fábio Gomes. “Ali minha mente fritou”, escrevi após a exposição sobre os princípios do liberalismo. De repente, tudo aquilo que eu já tinha lido e refletido sobre e que estava ali guardado na minha memória que é meio fotográfica para leitura se encaixou e eu percebi algumas estruturas por trás daquilo tudo. Eu percebi que nunca tinha pensado em todos aqueles temas pelo lado do indivíduo, eu nunca tinha dado a devida atenção às pessoas.

Fui atrás de devorar todos os autores e livros que pude encontrar, começando pelos mais clássicos, até hoje em que dedico algumas horas semanais na leitura de títulos menos conhecidos. Comecei pela Escola Austríaca, ali encontrei autores fundados no mundo real, partindo de princípios razoáveis e observáveis e derivando conclusões lógicas a partir deles, como se fossem axiomas e teoremas de um sistema matemático. Para um engenheiro, a coisa não poderia ficar mais bonita. Ainda assim, as teses são facilmente compreensíveis e os resultados suficientemente gerais para permitir a análise de problemas diversos. Todo o sistema é baseado em princípios fundamentais, o que lhe confere grande robustez. Falando assim, parece algo muito dogmático, a leitura das obras é o melhor caminho para compreender melhor este ponto de vista. Destaco a seguir algumas que muito me marcaram.

Em julho de 2014 fiz uma apresentação sobre o livro Burocracia, de Ludwig von Mises. O livro está disponível em inglês no site do Mises Institute. Ali o autor faz um contraponto entre o que vem a ser o que ele chama de “gestão capitalista” e a “gestão burocrática”, discutindo a noção de burocracia do público geral, as características de cada um dos sistemas e as implicações da burocratização no mercado, nas relações sociais e na psicologia das pessoas. Vale a leitura. A partir desse livro eu entendi uma coisa: não adianta querer administrar a coisa pública como uma empresa porque a coisa pública e as empresas têm objetivos diferentes. É quase como que comprar “livros pra comida e pratos pra educação”…

A segunda leitura que mudou a minha forma de ver o mundo foi o artigo O Uso do Conhecimento na Sociedade, de F. A. Hayek. Nele, o Professor discute o que viria a ser o Saber Concentrado, o Saber Disperso e a formação de ordens espontâneas. O primeiro é aquele que podemos encontrar em livros, teorias, aulas; o segundo é aquele fruto da experiência pessoal. Com Hayek aprendi que não podemos e não precisamos controlar cada aspecto das coisas, mas se queremos um determinado resultado de um sistema baseado em agentes, precisamos criar as condições certas para que ele se desenvolva naturalmente. Esse artigo influenciou até mesmo a maneira como preparo e ministro minhas aulas.

Por fim, A Lei, de F. Bastiah, me ensinou que para impor uma lei é necessário muito mais do que boas intenções, é preciso justificar agredir alguém. E qualquer um que seja capaz de justificar agredir alguém para alcançar um determinado resultado deve ser um cara perigoso, devemos tomar cuidado com ele.

Enfim, eu me tornei um liberal quando encontrei uma inconsistência inconciliável entre o que eu pensava e o que eu observava no mundo, foi porque meu mundo estava de cabeça pra baixo. Quem mudou de ideia uma vez tem maior chance de mudar de ideia novamente, por isso continuo estudando e pondo a prova os princípios desse sistema.

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