Recebi no dia 9 de junho, por meio da lista de emails do meu sindicato, a carta que reproduzo em anexo de autoria do Prof. Hilan Bensusan do Departamento de Filosofia da UnB. Resolvi comentá-la por se tratar de um exemplo emblemático que mostra o que é a Universidade pública brasileira da atualidade. Segundo o professor, a manifestação silenciosa de dois estudantes durante a Assembleia Geral da semana passada representa a falência da Universidade, uma instituição que deveria constituir um espaço de investigação e experiência. A Universidade não se resume a um cronograma de aulas, não se resume a uma instituição burocrática.

Fernando de Azevedo, em seu manifesto, prescrevia que “a organização de universidades é, pois, tanto mais necessária e urgente quanto mais pensarmos que só com essas instituições, a que cabe criar e difundir ideiais políticos, sociais, morais e estéticos, é que podemos obter esse intensivo espírito comum, nas aspirações, nos ideiais e nas lutas, esse ‘estado de ânimo nacional’, capaz de dar força, eficácia e coerência à ação dos homens…” Essa visão transformadora da Universidade encontra eco entre os docentes, mas não encontra consenso na sua implementação. Não posso falar por pessoa alguma que não a minha, mas percebo nas ações de inúmeros colegas coerência em uma concepção de que nossos alunos de graduação entram aqui para serem instruídos nos paradigmas que nos trouxeram até este momento na história, aqueles que foram superados e aqueles que ainda perduram. Segundo esta visão, é nosso dever apresentar-lhes o estado-da-arte e então soltá-los ao mundo para que sejam os agentes de solução dos problemas das pessoas. A aula é, por excelência, o instrumento de apresentação destes paradigmas, aula esta que é, na UnB, conduzida por docentes-pesquisadores, formuladores do conhecimento que vão ensinar, como preconizava Anísio Teixeira.

Me espanta um docente desta Universidade se perturbar com uma manifestação do alunato no sentido de evitar uma possível paralisação das aulas. Esse posicionamento não é isolado visto que, até o momento, 80% dos respondentes em consulta do DCE a pergunta “Você é a favor de uma greve estudantil (estudantes entrarem em greve) com a pauta ‘paralisação contra o golpe e os cortes do governo Temer’?” responderam ser contra uma eventual paralisação das atividades da UnB.

Enquete DCE

Curiosamente nem o professor nem nenhum dos presentes teve a audácia de perguntar a motivação daqueles alunos que ali se encontravam. Ao contrário, desde a reunião recebo manifestações escritas quase diárias com ilações sobre o que haveria por trás de um cartaz com os dizeres “queremos aula”. A Universidade se tornou o lugar onde os professores bradam que os estudantes devem ser ouvidos, mas não é capaz de descer do alto de sua sapiência para ouvir os estudantes, pelo menos não aqueles que ousaram discordar de nós.

O professor tem razão ao afirmar que não há normalidade institucional. Não me parece normal que um grupo de estudantes, na mesma reunião de docentes, manifeste-se com palavras de ordem como “professor pelego, ou tu paralisa ou tu não vai ter sossego” ou ainda que jovens encapuzados possam tentar frustrar um ato de seus colegas nas instalações da Universidade. Tampouco me parece normal que as pessoas tenham medo de frequentar os campi.

Talvez eu seja somente mais um alienado que devesse ser esclarecido por meus nobres colegas sobre o golpe em questão e os ataques que estou recebendo de Temer. Sorte a minha termos formado um comitê de mobilização com essa exata função. Enquanto aguardo me pergunto se isso seria uma “doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber”, reproduzindo a visão bancária de educar nos moldes combatidos por Paulo Freire ou se minhas rotinas pré-fabricadas disfarçadas de aulas me embruteceram a ponto de não ter mais salvação alguma.


Sobre a AG, a transversalidade e as mobilizações que virão

Uma mostra explicita da falência da universidade atualmente no mundo e neste país em particular em constituir um espaço de investigação e experiência – do tipo que tem como horizonte a universidade que não fornece diplomas do sonho de Eudoro de Sousa – foi algo que aconteceu na AG do sindicato hoje: um estudante e uma estudante passaram mais de uma hora empunhando um cartaz onde se lia “Queremos aulas”. Seguramente queriam a continuidade das atividades acadêmicas sem nenhuma interrupção como se não vivéssemos um descalabro de enormes proporções na vida política (e existencial) do país. O que a manifestação queria exprimir, supostamente, era um desejo de que o golpe nas instituições políticas do país não interrompesse a normalidade – como se golpes não fossem precisamente interrupções em qualquer normalidade. A ideia, imagino, seria de mostrarem-se contra uma possível paralisação ou uma possível greve dos docentes da universidade. Talvez por pensarem que tudo deve continuar como se o país não tivesse saído de sua ordem jurídica (pelo menos desde o dia que uma conversa da presidenta da república foi gravada e divulgada com ajuda do judiciário). Talvez por pensarem que o que ocorre no governo federal não deve afetar o que se passa na universidade – sem saber que o que se passa na universidade está historicamente associado com o que se passa no governo federal quando este é o palco de um golpe. Porém, “Queremos aulas”? Como se a universidade fosse uma instituição que oferece aulas em sua normalidade? Sim, como se ela fosse isso porque é precisamente isso que ela se tornou.
E todo o cenário do que se passa no país ensina muito. E pede por experimentações. E por experimentações protegidas como aquelas que a universidade poderia e deveria oferecer. O que se passa ensina sobretudo sobre transversalidade: a transversalidade do ataque aos governos de distribuição mais ampla de poderes na América Latina, e no Brasil em particular. Transversalidade: nem midiática, nem judiciária, nem parlamentar – os acontecimentos agenciam elementos de cada um desses domínios. Bruno Latour diz em seu Enquête sur les modes d’existence sobre os tais domínios que os modernos dizem que fazem uso para organizar sua vida – o domínio jurídico, o domínio político, o domínio da comunicação: esses domínios servem para que os nativos (os modernos) enganem quem tenta compreendê-los. Não é nesses domínios que alguma coisa se passa, é na transversal deles. Assim como o golpe: em cada domínio não há golpe, apenas eventuais rupturas da ordem jurídica – o golpe se passa porque ele atravessa a imprensa, os tribunais, o parlamento. Entender e discutir isso é parte de aprender a viver em um coletivo moderno. E observar o que se passa na transversalidade do golpe revela muito sobre a América Latina colonizada da era Obama: os golpes de Honduras, do Paraguay e do Brasil todos são quase tão iguais (em sua transversalidade) quanto foram os golpes militares da Argentina, do Chile e do Uruguay entre 1973 e 1976. Estamos vivendo um começo de uma nova era de golpes – e de um novo tipo de golpes. Reconhecer o golpe, neste cenário, já é em parte entendê-lo.
Porém a presença daquela manifestação de estudantes no canto do auditório onde ocorria a AG me perturbou. Não apenas porque mostra insensibilidade à enormidade da ruptura que um golpe onde as instituições parecem continuar funcionando normalmente. Não apenas porque mostra que a vida universitária se tornou um cronograma de aulas. Mas também porque banaliza o mal que tomou conta do país. Temo que a manifestação seja um presságio de um tempo que virá em que não apenas o golpe virá disfarçado, mas também o arbítrio se disfarçará de soberania, a doutrinação se disfarçarão de ensino e as repetições de rotinas pré-fabricadas se disfarçará de aulas. Sim, temo que haja um movimento crescente de embrutecimento na universidade (e em outras partes). Veremos como isso terá lugar na assembléia geral universitária que a AG decidiu hoje organizar para daqui a duas semanas. E são as resoluções da AG hoje, ainda que seguramente serão contestadas pelos que não acreditam que a universidade pode ter algum efeito na invenção de um coletivo, que pelo menos me dão alento de que há capacidade de resistência já que há um repositório de ousadia circulando pelos corredores.

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